Por dentro da África
Da luta contra o apartheid à justiça internacional, 13 africanos e uma organização tunisiana já receberam o prêmio. Texto atualizado em outubro de 2026.
O Prêmio Nobel da Paz foi criado pelo testamento do inventor sueco Alfred Nobel e é entregue desde 1901, em Oslo, na Noruega. De lá para cá, 13 africanos e uma organização africana receberam o prêmio, num total de 14 laureados de oito países.
A África do Sul lidera a lista, com cinco nomes. Quatro deles estiveram diretamente ligados à luta contra o apartheid ou ao seu fim. O apartheid foi o regime de segregação racial que vigorou no país de 1948 a 1994. A quinta é Navi Pillay, premiada em 2026 por sua trajetória na justiça internacional. Entre os laureados estão quatro mulheres: a queniana Wangari Maathai, as liberianas Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Gbowee e a sul-africana Navi Pillay.
Albert Lutuli (1960)
O primeiro africano a receber o Nobel da Paz foi Albert Lutuli (1898-1967). Nascido na Rodésia do Sul, atual Zimbábue, ele cresceu na África do Sul e presidiu o Congresso Nacional Africano (CNA) a partir de 1952. Inspirado em Mahatma Gandhi, defendia a resistência não violenta às leis de segregação. Em 1960, após o Massacre de Sharpeville, convocou um dia nacional de luto e queimou publicamente o seu passe, documento que os negros eram obrigados a carregar para circular pelo país. Foi preso e condenado. Mesmo sob restrições impostas pelo regime, recebeu autorização para viajar a Oslo em dezembro de 1961 e receber o Nobel da Paz referente a 1960.
Anwar Sadat (1978)
Militar e político, Muhammad Anwar Al Sadat (1918-1981) participou do golpe de 1952 que derrubou o rei Farouk e levou Gamal Abdel Nasser ao poder. Sucedeu Nasser na presidência do Egito em 1970. Em 1972, expulsou os assessores militares soviéticos do país e, em 1973, liderou o Egito na Guerra do Yom Kippur contra Israel. Anos depois, mudou de rumo: em 1977, tornou-se o primeiro líder árabe a visitar Israel oficialmente. Em 1978, assinou os Acordos de Camp David e dividiu o Nobel da Paz com o primeiro-ministro israelense Menachem Begin. O tratado de paz entre os dois países foi assinado em 1979. Sadat foi assassinado em 1981, durante um desfile militar no Cairo.
Desmond Tutu (1984)
Em 1984, o prêmio foi para o sul-africano Desmond Tutu (1931-2021). Bispo anglicano, ele dirigiu a diocese do Lesoto, país vizinho, de 1976 a 1978, e depois se tornou secretário-geral do Conselho de Igrejas da África do Sul. Defendia direitos civis iguais para todos, o fim das leis que restringiam a circulação dos negros, um sistema educacional comum e o fim das remoções forçadas. A firme oposição ao apartheid lhe rendeu o Nobel. Em 1986, tornou-se o primeiro negro a ocupar o cargo de arcebispo da Cidade do Cabo. Após o fim do regime, presidiu a Comissão da Verdade e Reconciliação.
Nelson Mandela e Frederik de Klerk (1993)
Em 1993, dois sul-africanos dividiram o Nobel da Paz pelo trabalho que pôs fim ao apartheid de forma pacífica e lançou as bases de uma nova África do Sul democrática.
Nelson Mandela (1918-2013) tornou-se o maior símbolo da luta contra o apartheid. Passou 27 anos preso, grande parte deles na prisão de Robben Island, e foi libertado em 1990. Em 1994, nas primeiras eleições multirraciais do país, foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul, cargo que ocupou até 1999.
Frederik Willem de Klerk (1936-2021) foi o último presidente branco da África do Sul, de 1989 a 1994. Foi ele quem libertou Mandela, legalizou o CNA e negociou a transição para a democracia. Depois das eleições de 1994, tornou-se vice-presidente no governo de unidade nacional e deixou a vida política em 1997.
Kofi Annan (2001)
O ganês Kofi Atta Annan (1938-2018) foi o sétimo secretário-geral das Nações Unidas, de 1997 a 2006, e o primeiro vindo da África subsaariana. Em 2001, ele e a ONU dividiram o Nobel da Paz “por seu trabalho por um mundo mais bem organizado e mais pacífico”. Durante o seu mandato, Annan colocou os direitos humanos no centro da agenda da organização e impulsionou a luta contra o HIV/aids, que levou à criação do Fundo Global de Luta contra Aids, Tuberculose e Malária.
Wangari Maathai (2004)
Em 2004, a queniana Wangari Maathai (1940-2011) tornou-se a primeira mulher africana a ganhar um Nobel. Nascida no distrito de Nyeri, na região central do Quênia, ela fundou em 1977 o Movimento Cinturão Verde (Green Belt Movement), que mobilizou mulheres rurais e plantou mais de 30 milhões de árvores no país. O Comitê Nobel premiou a sua contribuição para o desenvolvimento sustentável, a democracia e a paz. Em 2009, foi nomeada Mensageira da Paz das Nações Unidas pelo então secretário-geral, Ban Ki-moon.
Mohamed ElBaradei (2005)
O diplomata egípcio Mohamed ElBaradei formou-se em direito pela Universidade do Cairo em 1962 e doutorou-se em direito internacional pela Universidade de Nova York em 1974. Fez carreira no Ministério das Relações Exteriores do Egito, com passagens pelas missões do país na ONU em Nova York e em Genebra, e foi professor de direito internacional entre 1981 e 1987. Dirigiu a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) de 1997 a 2009. Em 2005, ele e a agência dividiram o Nobel da Paz pelos esforços para impedir o uso militar da energia nuclear e garantir o seu uso pacífico e seguro.
Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Gbowee (2011)
Em 2011, três mulheres dividiram o Nobel da Paz: a iemenita Tawakkol Karman e as liberianas Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Gbowee. O prêmio reconheceu a luta não violenta pela segurança das mulheres e pelo direito delas de participar plenamente da construção da paz.
Ellen Johnson Sirleaf venceu as eleições presidenciais da Libéria em 2005 e tornou-se a primeira mulher eleita chefe de Estado de um país africano. Antes dela, Carmen Pereira havia presidido interinamente a Guiné-Bissau por apenas três dias, em maio de 1984. Líder do Partido da Unidade, Sirleaf foi reeleita em 2011 e governou até 2018, num país que tentava se reconstruir depois de duas guerras civis.
Leymah Gbowee nasceu na região central da Libéria e se mudou para Monróvia, a capital, aos 17 anos, quando começou a primeira guerra civil do país, em 1989. Formou-se conselheira em trauma e trabalhou com ex-crianças-soldado do exército de Charles Taylor. Liderou o movimento Ação em Massa das Mulheres da Libéria pela Paz, que reuniu mulheres cristãs e muçulmanas e ajudou a pôr fim à segunda guerra civil, em 2003. Rodeada pelas imagens da guerra, Gbowee concluiu que “se alguma mudança tivesse que acontecer na sociedade, teria que ser feita pelas mães”.
Quarteto do Diálogo Nacional da Tunísia (2015)
Em 2015, o Nobel da Paz foi para uma coalizão de quatro organizações da sociedade civil tunisiana, e não para uma pessoa: a União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT), a Confederação Tunisiana da Indústria, do Comércio e do Artesanato (UTICA), a Liga Tunisiana dos Direitos Humanos (LTDH) e a Ordem Nacional dos Advogados da Tunísia (ONAT).
O Quarteto se formou em 2013, quando a transição democrática iniciada com a Revolução de Jasmim, em 2011, corria o risco de entrar em colapso. O país vivia sob a tensão dos assassinatos dos opositores Chokri Belaïd e Mohamed Brahmi e de protestos em todo o território. Sindicalistas, empresários, ativistas de direitos humanos e advogados, setores com interesses muitas vezes opostos, conseguiram reunir governo e oposição numa mesa de negociação. O diálogo levou a um governo de transição, a uma nova Constituição, em 2014, e às primeiras eleições livres desde a revolução.
Denis Mukwege (2018)
O Nobel da Paz de 2018 foi dividido entre o ginecologista congolês Denis Mukwege e a ativista iazidi Nadia Murad, do Iraque, pelos esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra. No leste da República Democrática do Congo, onde o estupro é usado para destruir famílias e comunidades inteiras, Mukwege fundou em 1999 o Hospital Panzi, em Bukavu. Ali, ele e a sua equipe já trataram dezenas de milhares de mulheres vítimas de violência sexual, muitas delas submetidas a cirurgias de reconstrução. Mukwege tornou-se uma das maiores referências mundiais no tratamento desse tipo de lesão e uma voz constante contra a impunidade.
Abiy Ahmed (2019)
Em 2019, o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, então com 43 anos, recebeu o Nobel da Paz. No cargo desde 2018, ele assinou um acordo de paz com a Eritreia, que encerrou duas décadas de impasse após a guerra de fronteira entre os dois países, e libertou milhares de presos políticos. O prêmio, porém, se tornou controverso: em novembro de 2020, menos de um ano depois da cerimônia em Oslo, começou a guerra na região do Tigré, no norte do país, marcada por graves denúncias de violações de direitos humanos. O conflito terminou com um acordo de paz assinado em Pretória, em novembro de 2022.
Navi Pillay (2026)
A juíza aposentada sul-africana Navi Pillay, de 85 anos, é a vencedora do Nobel da Paz de 2026. O Comitê Norueguês do Nobel destacou a “coragem e integridade excepcionais” de uma trajetória que ajudou a construir uma ordem jurídica internacional capaz de punir os crimes mais graves. Nascida em Durban, numa família de origem indiana, ela abriu o próprio escritório de advocacia em 1967, na então província de Natal. Foi a primeira mulher não branca a fazer isso, num país onde as leis do apartheid lhe fechavam as portas dos grandes escritórios. Ali defendeu militantes contra o regime e lutou na Justiça pelos direitos dos presos políticos de Robben Island, onde Nelson Mandela estava preso.
Com o fim do apartheid, tornou-se a primeira mulher não branca a ocupar o cargo de juíza da Suprema Corte da África do Sul, em 1995. No mesmo ano, foi nomeada juíza do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, que mais tarde presidiu. Ali participou do julgamento histórico do caso Akayesu, que reconheceu pela primeira vez o estupro como instrumento de genocídio. Depois atuou como juíza do Tribunal Penal Internacional e, de 2008 a 2014, foi Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Mais recentemente, presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado e Israel.
Agradecimento ao leitor Alessandro Mathera, que sugeriu a inclusão de Anwar Sadat, Kofi Annan e Mohamed ElBaradei.




