
Natalia da Luz, Por dentro da África
O sertão* da Bahia foi o ponto de partida para que o estilista quilombola* Dih Morais construísse uma coleção que atravessará o Atlântico e desembarcará no continente africano. Dih levará o Quilombo Barro Preto ao Fancy Africa, evento internacional de moda que acontecerá em Maputo, Moçambique, no próximo mês.

“Essa participação significa retorno. Imagina voltar ao continente mãe? Eu, menino preto, quilombola, periférico, da religião de matriz africana, agora poder levar muito de nós — minha avó, meus ancestrais e todos que vieram antes. Voltamos como arte, como celebração”, contou ao Por dentro da África, em meio aos preparativos para esse grande encontro da moda africana, que será realizado entre 22 e 27 de setembro. A concretização desse sonho está sendo possível graças à união de amigos e apoiadores — e o seu apoio pode somar nessa caminhada aqui!
Para dar vida à coleção de roupas e acessórios, Dih recorreu às próprias lembranças e à vivência coletiva no quilombo Barro Preto, onde nasceu e cresceu.

Os quilombos são territórios e comunidades autônomas formados historicamente por populações negras escravizadas em situações de resistência social e cultural durante o período colonial brasileiro. Atualmente, continuam sendo espaços de resistência e afirmação identitária, reconhecidos pelo direito à posse de suas terras e à preservação de suas tradições.
Durante a confecção e produção, ele trabalhou em estreita colaboração com artesãs locais, fortalecendo a economia comunitária. Dih conta que Mainha, sua avó, é o pilar desta criação: mulher de coragem cuja história é recontada nos tecidos. Um dos vestidos que serão apresentados, por exemplo, traz franjas de algodão que evocam as ondas do rio onde ela pescava.
“A moda que faço é sobre minhas histórias e vivências. Cada peça é memória transformada em arte.”
Além de ser um recorte autoral das memórias na Bahia — pedaço do Brasil repleto de influências e conexões históricas e culturais com o continente africano — o trabalho de Dih é também um manifesto político. Algodão, linho, palha e cabaça vão muito além de adereços.

“A cabaça — elemento central da herança africana diaspórica — é transformada em bolsas e acessórios. A palha da costa, símbolo das religiões de matriz africana, torna-se elo entre moda e espiritualidade. Já o linho, tecido escolhido por escravizados libertos para marcar dignidade e status social, é aqui reinterpretado como mensagem de liberdade”, descreve o baiano.
A sintonia da proposta do estilista se expande para as cores: tons crus e terrosos, em diálogo com o barro, o sertão e a caatinga*. O vermelho e o preto surgem em momentos pontuais para expressar força e identidade.
Moda como ferramenta política

Para Dih, a moda não é apenas estética, mas discurso e resistência. Ele lembra que não pretende seguir tendências e defende que a moda deve também ser usada como formação de opinião, como forma de exaltar a cultura.
“Por muito tempo fomos silenciados e invisibilizados. Hoje somos muitos e múltiplos: marcas, modelos, produtores. Temos muitos profissionais pretos que estão acontecendo — e isso é muito potente. Queremos devolver dignidade, honrar caminhos e vestir memória e ancestralidade como potência.”
Do sertão baiano às passarelas internacionais
A estreia no Brasil Eco Fashion Week 2024 projetou Dih no cenário da moda sustentável e engajada. Sua coleção chamou atenção por unir sofisticação e rusticidade, ancestralidade e inovação. Antes de ser selecionado para o evento, seu trabalho foi avaliado por um júri que considerou critérios como: eliminação de resíduos sólidos; ausência de componentes químicos tóxicos ou contaminantes; uso de tecnologias voltadas à sustentabilidade; articulação com projetos, cooperativas e grupos sociais para geração de renda e redução de desigualdades; além da adoção de modelos de negócio inovadores.

Agora, ao levar o trabalho a Moçambique, o estilista manterá a essência do Quilombo Barro Preto com novidades preparadas especialmente para o público africano. Segundo Dih, trata-se de uma coleção contínua, aberta a novas experimentações, mas sempre fiel às raízes quilombolas.
Com a participação no Fancy Africa, Dih espera consolidar sua marca como referência de moda quilombola no Brasil e no mundo. Mais do que roupas, ele quer transmitir narrativas.
“Espero continuar falando com os meus, potencializando cada vez mais a arte quilombola e o povo preto, e valorizando a artesania que tantas vezes é invisibilizada. Mas, sobretudo, honrar a ancestralidade.”
*Notas explicativas
Quilombola – Habitantes de quilombos e descendentes de africanos que foram escravizados, que vivem em comunidades rurais, suburbanas e urbanas. Mais de quinze mil comunidades quilombolas espalhadas pelo território brasileiro seguem atuantes, lutando pelo direito de propriedade de suas terras, consagrado pela Constituição Federal desde 1988.
Sertão – O Sertão nordestino é uma das quatro sub-regiões da Região Nordeste do Brasil, sendo a maior em área territorial. Estende-se pelos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Com clima semiárido, apresenta peculiaridades bioclimáticas e demográficas que o diferenciam de outros semidesertos do mundo.
Caatinga – Único bioma exclusivamente brasileiro, com grande parte de seu patrimônio biológico inexistente em qualquer outro lugar do planeta. Seu nome remete à paisagem esbranquiçada da vegetação durante o período seco.
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