A bicicleta começa a ganhar espaço próprio nas cidades africanas. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), governos de diversos países estão ampliando ciclovias e adotando planos de mobilidade ativa, como forma de aliviar o congestionamento, reduzir a poluição do ar, diminuir a dependência de combustíveis fósseis importados e tornar as ruas mais seguras.
O desafio é grande. A África concentra cerca de 3% dos veículos do planeta, mas responde por aproximadamente 24% das mortes no trânsito, e pedestres e ciclistas representam mais de um terço das vítimas. Ao mesmo tempo, mais de 1 bilhão de africanos caminham ou pedalam por quase uma hora por dia, e os transportes respondem por pouco mais de 30% das emissões de CO2 do continente, de acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE).
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Phano Liphoto tinha pouco mais de 20 anos quando começou a ir de bicicleta para a faculdade em Joanesburgo, na África do Sul, em 2022. Então estudante universitário, ele pedalava 15 quilômetros até o campus por ciclofaixas pintadas mais de uma década antes. Muitas eram esparsas, mal conservadas e frequentemente bloqueadas por vans de transporte coletivo.

Hoje, o trajeto do urbanista é bem diferente. Boa parte dele passa por ciclovias protegidas e cruzamentos adaptados para ciclistas. Às vezes, Liphoto combina a bicicleta com uma viagem no metrô de superfície de Joanesburgo, para um deslocamento contínuo por toda a cidade. “Ganhei em saúde, em dinheiro e em vida social”, diz ele sobre as melhorias na infraestrutura cicloviária de Joanesburgo.
A cidade é uma das metrópoles africanas, cada vez mais numerosas, que buscam se tornar mais amigáveis às bicicletas. A mudança tem o objetivo de aliviar os congestionamentos, reduzir a poluição, combater as mudanças climáticas e tornar mais seguras as estradas do continente, conhecidas por sua perigosidade.
Em abril de 2026, ministros de transporte e energia de toda a África se reuniram em Joanesburgo para aprovar um plano continental de investimento em ciclismo e caminhada. O documento, formalmente chamado de Plano de Ação Pan-Africano para a Mobilidade Ativa, foi elaborado por meio de consultas a mais de 1.300 partes interessadas de todo o continente e é coliderado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), pelo ONU-Habitat e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Onde a política abriu caminho
Mais de 1 bilhão de africanos caminham ou pedalam quase uma hora por dia, mas as vias do continente foram construídas para carros e, muitas vezes, não são seguras. A África tem 3% dos veículos do mundo e 24% das mortes no trânsito. Pedestres e ciclistas representam mais de um terço das vítimas.
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Adis Abeba, capital da Etiópia, está na linha de frente do movimento de ciclismo urbano na África. Há três anos, pedalar ali significava se esquivar de ônibus e semáforos, algo “meio emocionante, mas nada acessível ou confortável para a maioria das pessoas”, disse Maren Ahlers, cofundadora de uma organização sem fins lucrativos de mobilidade urbana. Hoje, cerca de 70% do seu trajeto diário é feito em ciclovias protegidas. Ela vê com frequência famílias ensinando crianças a andar de bicicleta, entregadores trabalhando até a noite e skatistas nas ruas depois de escurecer.
Para muitos etíopes, as bicicletas se tornaram ainda mais importantes com a guerra no Oriente Médio. O conflito provocou escassez de combustível, desorganizou os horários de ônibus e deixou carros parados por horas em filas nos postos. “Na minha bicicleta, consigo passar com facilidade por engarrafamentos, longas filas de combustível e ruas lotadas”, disse Ahlers.
Henok Adane, de 37 anos, organizador de eventos em Adis Abeba, começou a pedalar há dois anos, quando surgiram as ciclovias protegidas e os custos de transporte subiram. Seu trajeto de oito quilômetros leva de 30 a 35 minutos, um tempo previsível, independentemente do trânsito, e ele se sente com mais energia. Enquanto pedala, também desvia de algo que a maioria dos motoristas do continente não consegue: os preços muito mais altos dos combustíveis em toda a África, impulsionados pela guerra.
Em alguns lugares, a conectividade ainda é um trabalho em andamento. Ahlers e Adane descrevem ciclovias que terminam de repente, empurrando os ciclistas de volta ao trânsito. Abel Hailegiorgis, engenheiro etíope que fabrica bicicletas de bambu, diz que a peça que falta são melhores ligações com o transporte público.
O Plano de Rede Cicloviária de Adis Abeba, assim como o recém-lançado Marco Estratégico de Mobilidade Ativa do Egito, desenvolvido com apoio do PNUMA e de outros parceiros, busca integrar o ciclismo às redes de transporte de toda a cidade. A expectativa é que isso ajude a reduzir o tráfego de veículos e, com ele, a poluição do ar, além de diminuir a dependência do continente de combustíveis fósseis importados. O crescimento do ciclismo também pode ajudar a combater as mudanças climáticas. Pouco mais de 30% das emissões de dióxido de carbono da África vêm do setor de transportes, segundo a Agência Internacional de Energia.
Ciclistas à frente das estradas
O Quênia também está adotando o ciclismo. Com assistência técnica do PNUMA e do ONU-Habitat, o Ministério dos Transportes do país está elaborando uma política nacional de mobilidade ativa, com grupos de trabalho em fase de formalização e um roteiro em andamento.
A notícia é música para os ouvidos de John Kimani, consultor de transporte marítimo que mora em Mombasa, cidade litorânea e agitada. Desde 2017, ele pedala 20 km até o trabalho e de volta. A bicicleta reduziu seu trajeto de duas horas a cerca de um quarto disso, mas ele diz que há poucas ciclovias no percurso.

Em Nairóbi, a advogada Wendy Sigey tem uma experiência parecida. Ela percorre 13 km por dia em vias sem ciclofaixas. Mas diz que ir de bicicleta para o trabalho foi uma experiência transformadora. Além de economizar dinheiro, sua saúde física e mental melhorou. (Dados mostram que o deslocamento ativo leva a melhor saúde cardiovascular, menos estresse e menos faltas por doença.) “Em termos de saúde mental, estou muito mais feliz desde que comecei a usar minha bicicleta elétrica”, diz ela.
Outros países estão seguindo o caminho do Quênia. Os ministérios de transportes e de estradas de Gana aprovaram um plano de trabalho favorável às bicicletas, e o Malauí está se movendo para incluir o transporte não motorizado em sua política nacional de transportes.
Além disso, Marrocos realizou um workshop de lançamento em abril e planeja intervenções em várias cidades. Em junho, uma edição em francês do Plano de Ação Pan-Africano para a Mobilidade Ativa será lançada em um workshop regional com representantes de nove países.
“Com o plano agora aprovado, a questão não é mais se as cidades africanas devem investir em ciclismo e caminhada, mas com que rapidez podem fazê-lo”, disse Rob de Jong, chefe da Unidade de Mobilidade Sustentável do PNUMA. “A tarefa que temos pela frente é transformar a adoção do plano em ciclovias seguras e conectadas para o 1 bilhão de africanos que caminham e pedalam todos os dias.”
Sobre o Plano de Ação Pan-Africano para a Mobilidade Ativa
Adotado em 30 de abril por ministros de transporte e energia de toda a África, durante uma sessão da União Africana, o plano de ação é um marco abrangente para transformar a mobilidade no continente, priorizando as necessidades de pedestres, ciclistas e outros usuários de transporte não motorizado. Suas cinco metas abrangem segurança, acessibilidade, conforto, satisfação dos usuários e mais compromisso e investimento. Desenvolvido a partir do diálogo direto com mais de 1.500 partes interessadas, o plano é coliderado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, pelo ONU-Habitat e pela Organização Mundial da Saúde, com apoio da Fundação FIA.
Original: https://www.unep.org/en/news-and-stories/story/african-cities-bicycle-getting-lane-its-own



